terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Por que eu tive que crescer?


Semana passada ela se pegou pensando nos motivos para “crescer” de novo. Ela tem 21 anos, trabalha, estuda numa faculdade de alto nível, tem mil amigas, anda sempre na moda, tem um apartamento mais ou menos – mais para mais do que para menos – no centro da cidade, fala três linguas fluentemente além da sua língua mãe, mas mesmo assim ela andou pensando se vale mesmo a pena crescer.
Há algum tempo ela largou as bonecas e os desenhos animados dos Sábados de manhã por maquiagens e sapatos. Deixou de brincar na rua com os meninos para ir ao shopping com meninas. Começou a se preocupar com a opinião dos pais e passou a se preocupar ainda mais com a opinião alheia.

Conseguiu um emprego, um namorado “legal” aos olhos de todos, ganhou a carteira e o carro de aniversário de 18 anos do pai, e ganhou também aos poucos alguns cabelos brancos que a tinta vermelha não conseguia esconder por muito tempo, gastrite nervosa, depressão leve, dores de cabeça insuportáveis e problemas que não podia mais resolver sem ajuda.

Mas semana passada quando precisou fazer uma visita médica ao hospital e passou algumas horas deitada numa sala branca ela começou a pensar por que tinha que crescer. Por que teve que largar de todas as coisas que mais gostava no mundo só para dizer ser adulta? Teve que largar do sorvete de morango e kiwii cheios de granulado, para gostar de capuccino, cigarro.

Deixou de ouvir suas músicas para ouvir as músicas que todos julgavam ser boas, deixou de conhecer as letras, o motivo de ter aprendido tantas línguas e culturas diferentes. Deixou de sorrir por ganhar um urso de pelúcia da mãe ou um livrinho de histórias para colorir, para sorrir por colares de brilhantes, jantas em locais caros que jamais sonhara ter dinheiro suficiente para pagar e viagens que ela não gostaria de fazer.

E então ela chegou a conclusão de que não vale mesmo a pena crescer. Mas ela teve e você também tem, todos nós temos. E eu sei que ainda hoje, deitada naquela sala branca de hospital, recebendo o tratamento semanal para as dores de cabeças insuportáveis adquiridas com o passar dos anos naquele trabalho barulhento, ela ainda se pergunta: “Por que eu tive que crescer?”.

Jéssica Bett.

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