segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Liberdade, batom vermelho e tatuagens.


Um dia, depois das aulas de Francês, ao chegar em casa se deparou com o espelho antigo recostado no hall de entrada. Mais pálida e magra do que normalmente, aparentando estar mais velha por isso, se sentiu um pouco inconformada com a normalidade de ser daquela forma. Pegou o casaco de couro com taxas que havia enfiado no guarda roupas a muito tempo, colocou o sapato velho que mais gostava e saiu correndo de casa; os cabelos desarrumados ao vento e a respiração ofegante.

Ela sabia onde tinha que ir e o que tinha que fazer apesar do medo. O medo a havia perseguido por longos anos. O medo de não ser aceita nas aulas de dança, de se sair mal pintando quadros, de não cantar bem no recital. Mas isso não era dela, não era ela. E agora que sabia disso, corria em contro ao seu verdadeiro eu pelas ruas de Londres o mais depressa que podia.

E quando conheci essa garota, com aqueles olhos espantados e um sorriso no rosto, foi o dia em que eu mesma me achei. Estava preocupada de mais olhando para meus livros da universidade, segurando meu computador, minhas anotações e tomando meu café quando sem pensar me vi de cara no chão derrubada por ela. A pobre coitada da garota ficou com tanta vergonha daquilo tudo, que me ajudou mais do que depressa e fomos sentar naqueles banquinhos em frente ao Starbucks que eu sempre frequentava nas Quartas de tarde.

Então, sem perceber, nós duas estavamos contando sobre nossas vidas, desejos, preocupações. E então ela me disse como tinha sido perturbador o seu dia, e sua vida. E me disse que precisava mudar um pouco. Mudar os cabelos, trocar suas roupas, comprar alguns tênis e sapatos novos, e fazer uma tatuagem, principalmente a tatuagem. Eu mostrei para ela as minhas, e ela me pediu com a maior sinceridade o que as pessoas achavam de tudo aquilo que eu era.
Eu nunca tinha me importado com isso. Sinceramente, ainda não me importo, mas respondi que se quisesse ser eu mesma, e ser feliz por isso, não poderia me importar com a opinião alheia, qualquer que fosse. E ela simplesmente se levantou de um salto e saiu correndo.
Me agradeceu aos berros e me deixou sentada olhando para o horizonte feito uma boba. Mas daquele dia em diante eu mudei, e sei que ela também mudou.

Quem era ela? Não, eu não sei, e não faço idéia de que nome ela tinha. Talvez Elizabeth, Katherine ou Barbara. Eu não sei, e nem faço questão de saber, por que sei que não importa qual era seu verdadeiro nome, ele não seria o mesmo dali em diante. E eu sempre vou me lembrar da liberdade em seus olhos recém adquirida, do batom vermelho vibrante dos seus lábios nervosos e das tatuagens que imaginei que teria talvez, daqui uns anos, quando dessemos de cara uma com a outra de novo por ai.

E a considero a melhor amiga dentre as que já tive, pois ela me ensinou a ser verdadeira e sair correndo por ai em busca da felicidade de ser quem você é sempre que precisar.

E até hoje eu lembro dela e sorrio. Eu sempre sorrio.


Jéssica Bett.

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