segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Cinco Centavos



Ela sentou ao meu lado e começou a desenhar algo que eu não podia ver. Parou uns instantes e me disse séria “Sabe, acho que o Senhor tem uma vida muito feliz e despreocupada, já a minha vida não é facil não. Esses dias atrás mesmo, lá na venda da esquina a Dona Marta não quis me vender um picolé por conta de cinco centavos. Cinco centavos veja você Senhor Achiles! E as pessoas daqui do nosso bairro se dizem muito solidárias, vivem fazendo campanhas, banners, plaquinhas com os dizeres de ‘bom cidadão’ e todas essas coisas que ninguém mais quer saber. A verdade é que ninguém quer saber de ajudar o outro, é tudo por conta de status social. Estava lendo esses dias um poema no mural da sala que falava de solidariedade, corações doces e amor entre vizinhos e conhecidos. Mas me diga se o Senhor já viu isso por aqui Senhor Achiles. Será que as pessoas sabem mesmo o real significado de amizade, amor, companheirismo e todos os ‘ismos’ do qual eles falam por ai? Eu mesma tenho impressão que a minha mãe não sabe o que significa a palavra amor por exemplo. Ela vive triste pelos cantos e acha que eu não vejo, mas nós dois sabemos o que se passa, nós a conhecemos bem não é Senhor Achiles? Não, não precisa me dizer nada, eu sei que o Senhor concorda comigo até nas últimas vírgulas. Cinco centavos! E veja só, quando precisam de nós as pessoas chegam e falam como se nos conhecessem desde muito pequenos e como se fossemos amigos há séculos a fio. Estou de saco cheio desses bons exemplos que nos rodeiam por aqui. O moço que morava logo ali do outro lado da rua um dia me disse que só aprenderíamos a viver quando apredessemos de fato a sermos mais humildes, que íamos compreender também muitas coisas importantes junto disso, mas não sei se ele estava certo pois uns dias depois ele desapareceu e ninguém sabe onde o tal se enfiou. Mas não, não é só isso. Por que existem outros bairros e vizinhanças parecidíssimas com a nossa Senhor Achiles,  é só pegar o jornal e ver; nos livros que eu leio também tem exemplos à beça dessas coisas todas, então, não deve ser só aqui. Devem ter outras Donas Martas por ai, e devem existir também Senhores Achiles que escutam e meninas como eu que questionam e nunca ganham respostas, afinal se elas ganhassem, essas coisas deveriam já ter sido solucionadas. Cinco centavos! Mal posso acreditar. Mas chega de lamentos, vou dar uma volta, o que o Senhor acha de vir comigo Senhor Achiles?”.
Eu estava preocupado com ela e não sabia o que fazer, mas quando vi seu desenho em cima da mesa logo entendi que nada havia de ser feito se não esperar que ela crescesse um pouco mais. Ela havia nos desenhado – eu com minha coleira brilhante e vermelha que ela segurava em uma mão e ela com um sorriso grande no rosto – segurando então o picolé da venda da esquina que Dona Marta se recusara a vender.


Jéssica Bett

Um comentário:

  1. texto lindo, Jess!!! Posso fazer um curta-metragem abseado nele??

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